Um Diamante

diamanteÉ a enorme pressão a que é submetido
Que transforma o que outrora foi um simples e rejeitável carvão
Em um cobiçado e valioso diamante. 
(Augusto Branco)

Faz de tua alma um diamante. Por cada novo golpe uma nova face, para que umdia ela seja toda luminosa. 
(Rogelio Stela Bonilla)

É própria da natureza humana a necessidade de dar significado à vida. Sentimos um imperioso desejo na alma de sermos valorosos. Os trabalhos, empreendimentos, artes e demais realizações são formas de transcendermos nossa humanidade, marcando a contribuição e passagem de cada um no mundo, para além de uma efêmera existência. Dar sentido ao que somos, ao que fazemos, ao que realizamos e construímos, é algo que nos ajuda a viver com propósito, cultivando a motivação e a esperança.

As mais belas respostas sobre o sentido da vida, sobre o sentido de minha própria vida, com certeza, não aprendi através de teorias, discursos ou com as mais diversas elucubrações teológicas ou filosóficas. As mais belas respostas, eu senti no corpo e na alma através de singelos gestos de amor. E, todo sentido da vida percebi contido num precioso agora, vivido e partilhado com pessoas que também deram sentido à sua própria existência, estendendo suas mãos para além de si mesmas. Percebi que o sentido que damos à vida se constitui em relação. É através de nossas relações, num processo de identificação e diferenciação, que damos sentido à nossa própria existência.

Creio que uma das aprendizagens mais difíceis que fazemos em nossa vida adulta é que doer faz parte da arte de viver.  Seria uma ilusão imaginar que poderíamos nos esquivar da dor e vivermos apenas momentos plenos de realização e felicidade. No entanto, é bom lembrar que junto à dor existe a descoberta de mãos quentes que se estendem em solidariedade. Do sol que fazendo seu trajeto acorda nossos corpos com seu calor e nos recorda de que estamos vivos e podemos realizar, podemos escolher e enfrentar os desafios próprios da condição humana, buscando superações. Importa sempre a pergunta: O que quero fazer sobre isso que me acontece agora?

Recordo-me da frase de Augusto Branco: “É a enorme pressão a que é submetido / Que transforma o que outrora foi um simples e rejeitável carvão / Em um cobiçado e valioso diamante.” Embora não sirva de consolo, quando vivenciamos o ápice de um momento de dor, é exatamente este momento que pode revelar uma bela e valiosa face de nossa existência. Um diamante é bruto e opaco quando retirado da terra e somente após ser lavado, raspado e polido emerge sua centelha interior, multifacetada e brilhante. A composição dessa pedra tão fascinante é carbono puro, cristalizado sob altas pressões e temperaturas, nas mais profundas entranhas da terra; há bilhões de anos. Dizem os especialistas que “não existem dois diamantes iguais”. Cada um é único e exclusivo, com suas características próprias. Um diamante passa por diversos processos até chegar à forma na qual costumamos vê-los em joias. É preciso lapidá-lo para que adquira o brilho intenso, tão característico.

A esperança não nasce da falta da dor, mas é constituída em seu território. São “agoras” desafiadores de nossa vida que lapidam faces especialmente belas de nossa alma. É, muitas vezes, doendo que nascemos para percepção das coisas essenciais em nossa vida. Num momento assim, muitas perdem a importância e o valor e descobrimos que por algumas outras pequenas e singelas coisas, nossa vida pode tomar novo rumo e adquirir sentido. Percebemos que um sorriso acorda nossos mundos interiores, que um aperto de mão ou um abraço nos traz a certeza de uma amizade leal, que a companhia de algumas pessoas nos faz um imenso bem, que nossa vida pode ajudar outra e isso basta para sabermos que somos úteis, preciosos, relevantes e não estamos passando em vão.

Não há consolo que resolva a dor, se em nossa experiência não aprendermos o amor — que em primeiro lugar precisa manifestar-se em amor à própria vida, pela percepção do quanto nos é preciosa. Pensando nisso, creio que a grande questão que precisamos resolver é: O que queremos fazer do tempo que vivemos? Que a resposta nos mobilize de tal modo o coração, a ponto de curar nossos corpos e almas — desejarmos superar os desafios e continuarmos caminhando, realizando, constituindo gestos e momentos de beleza.

A cada manhã, podemos ser tomados pela imensa nostalgia de viver ou podemos escolher a esperança de acolher o novo agora como repleto de possibilidades, cuja criação terá como partícipe os gestos de nossas mãos. Até mesmo quando sofremos o resultado da ação alheia, cabe a nós a decisão do que faremos de nosso destino.

Nossa vida é um precioso diamante. Cada instante — seja de alegria ou de dor, felicidade, tristeza ou amor — vai lapidando uma face que pode tornar-se brilhante. É importante que das entranhas de nossa alma — mesmo que eventualmente ofuscadas pelas luzes da escuridão — possamos gestar o brilho dos amanheceres de nossa própria construção. Creio que pensar assim é um belo modo de significar a existência, superando a efemeridade de cada agora e percebendo em sua vivência um vislumbre da eternidade. 

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