Ensaio Sobre o Olhar

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Tola a pretensão do olhar que observa e pressupõe-se capaz de evidenciar e de intuir aquilo que é, porque, do lugar onde se encontra, tudo vê e vê completamente. Nossa cultura, uma cultura da imagem, é extremamente superficial. Mas cada vez menos se vê o que há além dessa superfície.

O olhar é feito de luz e sombra, de visível e de invisível. Quando olhamos, o que percebemos à primeira vista — e consideramos muitas vezes como irrefutável, como suficiente em si mesmo — é apenas uma percepção unilateral, uma ilusão de ótica.

O olhar é o único sentido que tem a pretensão de julgar uma situação de conjunto, posto que nos põe à distância, como se pudéssemos estar ausentes de tudo que estamos a ver. É preciso duvidar da ideia que fazemos do real, concebendo que ao vermos algo, projetamos nossa própria possibilidade de ver inscrita na alma e outras tantas coisas perdem a visibilidade. O que deixamos de enxergar a partir do que estamos a ver?

Fechar os olhos é condição para que a imaginação trace seus contornos e se faça presente. Por isso a noite me fascina, e a ausência de luz me convida à procura de uma passagem entre o que vendo, não vemos e o que não vendo, nos permite captar alguma impressão do que de fato é. As sombras nos aguçam a atenção para os contornos, como se pudéssemos transpô-los, intuindo o invisível.

[...] Esta penumbra é lenta e não dói;
flui por um manso declive
e se parece à eternidade. [...]
(Jorge Luis Borges)
(Recorte do Livro OUTRAS FACES)

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